O canto melancólico da ‘saudade’: a ave que ecoa nas montanhas do Sudeste brasileiro
29/03/2025
(Foto: Reprodução) Importante dispersora de sementes, espécie endêmica do Brasil é conhecida por emitir um som longo e agudo. Espécie apresenta dimorfismo sexual acentuado
Silvander Mendes
Com uma população severamente fragmentada, a ave conhecida pelo nome “saudade” ocorre em montanhas altas dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais - principalmente entre 1.200 e 2.050 metros de altitude.
De hábitos solitários, a saudade emite um canto melancólico que emociona aqueles que a ouvem. Recentemente, a equipe do Terra da Gente conseguiu flagrar a ave em uma área de mata na região de Delfim Moreira (MG).
“O canto da espécie é um assobio longo, agudo e melancólico, sendo uma das vozes mais marcantes dos locais que habita. A frequência do assobio varia de 3.100 a 3.150 Hertz e dura cerca de três segundos”, relata o ornitólogo Carlos Gussoni.
Mas ao contrário de arapongas e anambés pelo Brasil, que também integram a família Cotingidae, a saudade não se encontra ameaçada de extinção, apesar da fragmentação de seu habitat. Endêmica do Brasil, a ave canta a uma frequência sonora equivalente à dos violinos.
Ave é conhecida pelo canto melancólico
Francisley Ribeiro
Assim como as outras espécies da família Cotingidae, a ave é uma importante dispersora de sementes. O biólogo explica que isso tem a ver com a variedade de frutas ingerida pela ave, que ocasionalmente se alimenta de artrópodes.
Segundo o Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade (Salve), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a ave é localmente numerosa nos Parque Nacionais de Itatiaia e da Serra dos Órgãos, ambos no Rio de Janeiro.
Embora não haja estudos conclusivos sobre a migração da espécie, registros sugerem que ela realiza deslocamentos altitudinais fora do período reprodutivo. “Durante os meses frios, indivíduos já foram observados entre 300 e 500 metros de altitude, possivelmente em busca de certos tipos de frutas”, diz Gussoni.
Equipe do TG encontrou esta e outras espécies presentes na Serra da Mantiqueira
Leonardo Vilela/TG
Outra curiosidade relacionada à saudade é o dimorfismo sexual, que é bastante acentuado na espécie. Os machos são negros com uma mancha amarela nas asas, enquanto as fêmeas apresentam plumagem com tons verde-oliváceos e amarelados. Ambos os sexos possuem o bico alaranjado curto e os olhos vermelhos.
“Não se sabe quase nada sobre sua reprodução. O período reprodutivo compreende os meses de setembro a novembro. Há registro de um ninho no mês de novembro, porém sem detalhes”, finaliza o pesquisador.
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