Sequência de fotos registra briga entre beija-flores-de-fronte-violeta em Nova Lima, MG
02/04/2025
(Foto: Reprodução) Flagrantes raros revelam comportamento agressivo da espécie na disputa por fontes de alimento. Briga entre beija-flores-de-fronte-violeta ocorreu em Nova Lima (MG)
Amaury Pimenta
Era o início de uma passarinhada. O engenheiro aposentado Amaury Pimenta estava no local onde normalmente consegue registrar muitas espécies de aves. Naquele momento, estava atento ao chamado do macuquinho, uma espécie incomum na trilha de seu condomínio, localizado ao lado da RPPN Mata do Samuel de Paula.
Neste dia, conseguiu fazer o primeiro registro da vocalização do macuquinho, após mais de 15 anos percorrendo a trilha. De repente, com a câmera em punho, surpreendeu-se ao ver dois beija-flores-de-fronte-violeta caindo a cerca de três metros de onde estava.
"Não tive outra reação a não ser disparar o obturador da minha Nikon. Foram mais de 150 cliques da cena, que durou exatos 30 segundos. Os dois estavam engalfinhados e não se soltavam. Vi que um deles era um macho, pela forma reluzente com que posou para minha lente", conta Amaury.
"A princípio, pensei que fosse uma cena de acasalamento, algo comum de se ver por aqui. Acredite, só percebi que eram dois machos quando fui editar as fotos em casa. A emoção veio mesmo quando vi os detalhes da briga, o sofrimento do perdedor e a astúcia e altivez do vencedor. Pura emoção e gratidão por poder presenciar momentos tão únicos da natureza", completa.
Briga entre beija-flores-de-fronte-violeta ocorreu em Nova Lima (MG)
Amaury Pimenta
Aos 60 anos, Amaury acumula 16 anos de experiência na observação de aves. Decidiu se dedicar à atividade ao perceber a enorme variedade de espécies que visitavam seu jardim e quintal diariamente. Foram tantos registros que ele conseguiu reunir 140 espécies em um livro de fotografias.
Durante a edição das fotos, Amaury notou a bravura de uma das aves, assim como a força que aplicava sobre o outro indivíduo, que permaneceu o tempo todo em desvantagem.
"A pose do 'vencedor' é simplesmente inusitada. Ele olhava diretamente para minha lente, de asas abertas e brilhando intensamente, como se quisesse afirmar sua vitória. O outro, totalmente imobilizado, parecia sem condição de respirar", relembra.
Briga entre beija-flores-de-fronte-violeta ocorreu em Nova Lima (MG)
Amaury Pimenta
Após 30 segundos de combate intenso, os beija-flores voaram mata adentro. O palpite de Amaury é que a briga estivesse relacionada à defesa de território, já que não havia fêmeas por perto para serem disputadas. A passarinhada ocorreu no início de março, mas ficou marcada na memória do engenheiro.
‘Brigões por natureza’
O ornitólogo Glayson Ariel Bencke, do Museu de Ciências Naturais da Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura do RS, explica que os beija-flores dependem de fontes temporárias e concentradas de alimento, como plantas floridas, que não estão espalhadas uniformemente pelo ambiente. Assim, evitar concorrência defendendo uma dessas fontes de alimento é uma estratégia vantajosa, já que o recurso se esgota rapidamente.
Os confrontos podem durar pouco mais de um minuto e raramente levam à morte de um dos envolvidos. Normalmente, um dos combatentes desiste antes que a situação se agrave.
Briga entre beija-flores-de-fronte-violeta ocorreu em Nova Lima (MG)
Amaury Pimenta
"Os machos, em geral, são maiores e mais briguentos que as fêmeas. Além disso, espécies maiores de beija-flores tendem a dominar as menores. Existe uma hierarquia bem definida entre eles, que costuma ser respeitada. Mas, quando beija-flores do mesmo tamanho se encontram em uma dessas fontes de alimento, a disputa pode acabar em briga! Provavelmente foi o que ocorreu com os beija-flores da foto", explica Glayson.
O especialista ressalta que os beija-flores não defendem territórios propriamente ditos, mas sim fontes de alimento. Se o recurso é abundante, como um jardim florido com muitas plantas, várias espécies podem se alimentar ao mesmo tempo. No entanto, sempre haverá indivíduos dominantes protegendo sua "parte" do jardim.
Geralmente, brigam entre si, sem enfrentar vespas, abelhas ou pássaros de outras famílias que também se alimentam de néctar, como as cambacicas. No entanto, não é raro ver um pequeno beija-flor atacando predadores próximos ao ninho, como o carrapateiro e o carcará, assim como fazem pássaros maiores, como a tesourinha e o suiriri.
Outras estratégias de sobrevivência
A agressividade dessas aves é proporcional ao tamanho. "Beija-flores grandes, como o beija-flor-tesoura, o beija-flor-de-veste-preta e o beija-flor-preto, são agressivos e costumam afastar espécies menores. Mas, quando a disputa ocorre entre indivíduos da mesma espécie e de tamanho semelhante, todas as espécies podem se mostrar agressivas."
No entanto, nem todos os beija-flores apresentam esse comportamento. Espécies menores ou fêmeas aproveitam momentos em que os indivíduos dominantes estão ocupados ou ausentes para sugar rapidamente o néctar de algumas flores, evitando confrontos.
Há também beija-flores que adotam estratégias diferentes, como os rabo-brancos. "Embora relativamente grandes, esses beija-flores são 'trapliners', ou seja, exploram flores dispersas percorrendo longos circuitos na mata, que repetem várias vezes ao dia, em vez de defender uma única planta contra outros beija-flores", exemplifica Glayson.
Beija-flor-azul-de-rabo-branco (Florisuga mellivora) registrado no Pará
Bradley Davis/iNaturalist
Outro grupo que costuma evitar combates é o das fêmeas. "Fêmeas de espécies grandes podem espantar espécies menores em fontes de alimento. Mas, em geral, elas não apresentam o comportamento de marcar território para advertir outras espécies. Provavelmente, esse comportamento agressivo dos machos está relacionado à estratégia de vida dos beija-flores."
As fêmeas fazem o ninho e criam os filhotes sozinhas, sem ajuda dos machos, geralmente em áreas isoladas da mata. Os machos, por sua vez, precisam chamar a atenção das fêmeas e, muitas vezes, brigar entre si por elas, já que elas levam um estilo de vida solitário durante a maior parte do ano.
"Os machos de várias espécies se reúnem em arenas para cantar e se exibir, esperando que alguma fêmea passe por perto. Nessas situações, também podem ocorrer brigas", finaliza o especialista.
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